RN: São Miguel do Gostoso dá um banho de belas praias PDF Imprimir E-mail
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Acesse a matéria direto na fonte Autor: Roberto de Oliveira (Revista da Folha)
Data da publicação: 06/04/2006
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"Aqui se faz Gostoso", anuncia a placa de boas-vindas na RN-221, estradinha de asfalto rodeada de coqueirais e belas lagoas de água doce, logo na entrada da cidade. A poucos metros dali, o posto de gasolina estampa o adjetivo no painel luminoso. O mesmo se repete, em letras garrafais, no supermercado e na farmácia da avenida central. Até na praia, as campanhas de educação ambiental o trazem em dose dupla: "É gostoso ver Gostoso limpo".

Roberto Oliveira/FI
Vista da Praia de Tourinhos em São Miguel do Gostoso / RN
Vista da praia de Tourinhos
Numa cidade que carrega o insólito nome de São Miguel do Gostoso, a vida é assim: dos estabelecimentos comerciais aos pontos turísticos, passando pela prosa cadenciada de seus moradores, gostoso é uma palavra cortejada a todo momento.

O santo mesmo foi chutado para escanteio: ninguém dos cerca de 9.000 habitantes (áreas urbana e rural) usa o nome do padroeiro para se referir à cidade. Só por Gostoso. Os nativos guardam diferentes versões sobre a adição do adjetivo ao nome do padroeiro. A parte unânime é que o lugar inicialmente se chamava São Miguel de Touros --Touros em referência ao município vizinho, do qual era distrito.

Já a versão do Gostoso é bem mais "nonsense". Ele teria sido inspirado por um morador que hospedava caixeiros-viajantes. Enquanto preparava o café ou o jantar no fogão à lenha, o anfitrião divertia seus convidados contando histórias, sempre marcadas por longas e gostosas gargalhadas. Por conta dessa peculiar gaitada, como se diz no Nordeste, o dono da casa, que pode ser pescador, boiadeiro ou vendedor, dependendo de quem narra, começou a ser chamado de "seu" Gostoso.

Os moradores locais e os da redondeza passaram a se referir à vila simplesmente por Gostoso, para diferenciá-la de outros povoados que também adotavam o mesmo São Miguel. Após a emancipação, em 1993, a população quis se livrar também da referência ao município vizinho e, um ano depois, um plebiscito foi convocado para decidir o assunto. Resultado: com quase 100% dos votos, Gostoso se saiu vitorioso.

Quem é natural ou habitante de São Miguel do Gostoso é chamado de gostosense, mas há quem prefira suprimir parte da grafia para gostoso ou gostosa. Há gostosenses "naturalizados" oriundos de São Paulo, Ribeirão Preto, Paris, Genebra, Milão e até de Argel, capital da Argélia. Mas essa mistura não sufocou o clima de tranqüilidade, para deleite dos moradores e turistas nacionais e estrangeiros que buscam sossego em suas praias paradisíacas.

O lugar é limpo, bem acima da média das cidades praianas nordestinas, tranqüilo, charmoso e seguro. Ideal para descansar e fugir do estresse urbano.

Onde o vento faz a curva

Gostoso, onde celular nem pega, fica exatamente na "esquina" do continente sul-americano, sentido oeste, conhecida como Ponta do Calcanhar, marco zero da BR-101, que começa no Rio Grande do Norte e termina 4.500 km depois, no Rio Grande do Sul. Seu litoral se alinha paralelamente à linha do Equador.

A posição geográfica favoreceu o desenho de suas praias. Tome como exemplo Tourinhos, uma enseada de águas claras e mornas, praticamente deserta, com uma duna gigante que "se aquietou", como dizem os filhos de Gostoso, petrificou-se há cerca de 2.000 anos e se transformou num morro com cerca de 8 m de altura e vista deslumbrante. Tourinhos poderia figurar tranqüilamente na lista das praias mais belas do Brasil, mas permanece praticamente deserta a maior parte do tempo, com exceção dos feriados prolongados.

Onde quer que se esteja em Gostoso, bate uma brisa boa e constante a qualquer hora do dia ou da noite --afinal, é lá onde o vento faz a curva-, o que garante a festa dos adeptos dos esportes náuticos à vela.

A praia Ponta do Santo Cristo é um dos melhores "points" de windsurfe e kitesurfe do Brasil. Uma duna invade o Atlântico e represa um braço de mar formando uma imensa piscina natural, ótima para banho tanto na maré baixa como na alta, de águas mornas e transparentes.

É de lá que se tem uma ampla visão da enseada e se sente tentado a encarar longas caminhadas à beira-mar, descobrindo uma praia diferente em cada curva. Preste atenção aos nomes: Cardeiro, Xepa, Maceió, Rapadura.

Uma dica: o vento forte suaviza o efeito dos raios do sol. Por mais intenso que ele esteja e por mais branco que você seja, não irá perceber o estrago, só à noite, depois da ducha. Por isso, abuse do protetor solar.

Um pouco mais distante, depois de Tourinhos, estão Morros e a praia do Marco, famosa por ter sido a primeira no Brasil em que desembarcaram os portugueses, em 1501, para demarcar as novas terras conquistadas. É onde está a réplica de um marco português do século 16; o original fica em exposição no Forte dos Reis Magos, o monumento mais antigo da capital Natal.

Em sentido oposto, rumo à "rival" cidade de Touros, a cerca de 15 km, está o mais alto dos 173 faróis sob o controle da Marinha do Brasil. Inaugurado em 1912, o farol Calcanhar é considerado estratégico, por ser o ponto da América do Sul mais próximo da África, servindo de referência à navegação e à aviação.

Reserve uma dose extra de energia para encarar os degraus que levam a 62 m de altura. O farol pode ser visitado aos domingos (entrada franca) e, do alto, se tem uma visão privilegiada das praias recortadas da região.

Para se recompor, dê um parada no restaurante Balica, na praia Maceió. Uma de suas especialidades é o arroz de polvo, R$ 17 por cabeça. Gostosense, o chef Isaias Canuto Soares, 36, metade deles na cozinha, explica o preparo: "Além do grão e do molusco que lhe dão nome, vai leite de coco, tomate, pimentão, cebola e uns temperinhos locais".

E esse gostinho especial, Isaias? "Tem uma pitadinha de canela para dar um toque agradável, mas o que o deixa assim bem saboroso é mesmo o polvo. O molusco daqui é gostoso demais", conta.

Pelo jeito, Gostoso contagiou até o mar.
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